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Mediação ou visita guiada?

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  • #693
    Ozias Soares
    Membro

    Recentemente, o termo “MEDIAÇÃO” passou a ser usado como sinônimo do trabalho educativo realizado nos museus  e que, de algum modo,  substituiria termos como “visita guiada”, “visita orientada”, “visita monitorada”, “acompanhada”, e termos do gênero. Que ganhos conceituais e metodológicos efetivos temos tido com a mudança?

    #745
    Jorge Ramos
    Membro

    Caro Ozías,

    Acredito que o maior ganho seja, exatamente,  a diferença na acepção conceitual e está diretamente vinculada à concepção de educação adotada nos museus que norteia suas práticas socioeducativas. Visita “guiada”, “monitorada”, “orientada” dá uma ideia de que o visitante é um mero receptor de informações/orientações acerca do acervo e de como se comportar nos espaços expositivos. Mediação já amplia a visão educativa nessa atividade onde o visitante é ( ou deve ser) estimulado a participar ativamente da troca de conhecimentos inerente à atividade. O profissional do museu “apenas” media a visita sem ser o “único detentor” daqueles saberes, como vemos em muitos museus, infelizmente. Os acervos além das inquestionáveis simbologias impressas, tem significância diferenciada para cada visitante de acordo com seu arcabouço cultural e sua memória histórico-afetiva. A visita no “formato mediado” valoriza e amplia essa visão socioeducativa da visita que lhe é tão necessária.

    Contudo, em alguns casos, acho pertinente o uso do termo “monitorado” ou “guiado”. Por exemplo em momentos de grande fluxo de visitação nos museus, quando a preocupação maior é o “ordenamento” organizacional momentâneo, sem a preocupação direta e efetiva com a produção de conhecimento naquele momento. É isso que penso.

    #793

    “Mediador” é um termo que abrange outros campos educacionais, não sendo o museu o único em que o/as educador/as vem ganhando esta “denominação” no processo educativo.

    Gostei muito do que Jorge Ramos escreveu sobre o termo e creio que em todo processo educativo o que o sujeito faz com aquilo que se relaciona (no museu, na escola, na igreja, nas demais instituições e espaços de formação diversos) fica a seu próprio cargo. Quero dizer com isso que, além de propor uma relação dialógica nas visitas ao museu, o termo “mediação” tem não só a ver com a metodologia, mas com o objetivo que se tem ao propor uma relação com os saberes praticados em todos os processos educativos. Ou seja, dali o sujeito decide quais caminhos poderá enveredar para ampliar suas redes de conhecimentos – aquelas que ele próprio julgar necessário/interessante.
    Os termos “visita guiada” ou “monitorada” parece ter mais a ver com uma proposta de produção de conhecimento fixa, pronta a partir do contato com as obras/o conhecimento desenvolvido no proc educativo. Ou seja: “é isso que esse conteúdo quer dizer – e nada mais”. Esse tipo de metodologia implica em delimitar os modos de expressão do conhecimento e, principalmente,  a própria significação daquilo que fora desenvolvido – em diversos contextos (lembrando, mais uma vez, não só em museus).

    #831

    Acho muito mais produtivo pensar em um modo de se conduzir as visitas (sejam elas guiadas ou mediadas), em qualquer tipo de museu, de maneira com que o visitante/aluno seja estimulado a questionar os porquês daquela informação, se aquilo é realmente “verdadeiro”, se as teorias já cristalizadas não contém algo a ser discutido, isto é, a visita, antes de tudo, tem de fazer o visitante/aluno pensar, discutir, chegar a suas próprias conclusões. Não me importa se o termo usado vai ser “visita guiada”, “visita monitorada”, “visita disso ou daquilo”, o que me importa   é como o contato entre o educador do museu e o visitante/alunos ocorre, e se o visitante/aluno saiu do museu de uma maneira diferente de como entrou.

    #832
    cintya
    Membro

    Olá, pessoal!

    Concordo com o Jorge Ramos, quando destaca que o termo “mediação” implica  o visitante no processo de aprendizagem, tornando-o ativo neste processo. Na minha opinião, os educadores – estejam em instituições museais ou em qualquer outra instituição que se proponha educativa – devem preocupar-se em atuar como mediadores, facilitadores, e não, como transmissores do conhecimento.

    Forte abraço a todos!!!

    Cintya Callado.

    #839

    Trabalho em um Museu de cultura popular, portanto o foco é a cultura local e os saberes populares. O principio aqui é o reconhecimento de que o visitante tanto quanto o educador possui esse saber. Dessa forma o educador não educa, pois isso indicaria uma transmissão do saber e uma relação desigual. O visitante pode saber tanto ou mais que o educador. Dessa forma o papel do mediador é alcançar o conhecimento do visitante e fazê-lo reconhecer como importante, valoriza-lo e não ensina-lo algo. Assim recusamos o termo educação preferindo o termo mediação.

    #848
    Ozias Soares
    Membro

    Rebeca, acho que você e Cintya concordam com o uso de “mediação” como uma nova forma de perceber a relação educativa, seja em museus ou em outras instituições de saberes. O Bruno destaca que prefere o uso de “mediação”, na medida em que visitantes e educadores estão mutuamente implicados em “aprendizagens”. O Flávio, todavia, coloca uma questão que pode ser interessante nessa nossa discussão: as palavras, os termos, usados em nossa prática, mesmo aqueles com aparência de “progressistas”, “modernos”, “atualizados”, podem significar pouco se os CONTEÚDOS dessa mesma prática não caminharem na direção de uma mudança de postura e concepção efetivas. O Jorge, por sua vez, destaca que a mudança conceitual é importante na medida em que amplia, aprofunda, a relação dos educadores com os visitantes, deixando de lado a tradicional “visita papagaio”, com scripts pré0-definidos. Talvez o questionamento do Flavio seja: não deveríamos ter o cuidado para não cairmos nos “modismos” das palavras sem uma mudança efetiva nas nossas práticas? Vamos conversar…

    #859

    Compartilho a preocupação presente nesse debate, de nada adianta mudar a palavra usada para tal ação, se, de fato, não houver transformação na prática, de forma consciente e integradora.

    #887

    Bom.. Eu sou estudante ainda de Pedagogia e venho observando varias pesquisas sobre educação e museus. Esse problema é uma via de mão dupla, onde os museus ainda não estão preparados para esse tipo de visita, onde os visitantes tem o o “poder” de questionar sobre o lugar e se encontrar ou não no espaço museal, e por outro lado  os professores em sua grande maioria não preparam essa visita, já que é só mais  “um passeio da escola”, pois a nossa formação não contempla o espaço de museu como espaço escolar. 🙁

    #890

    Olá pessoal

    Ja disse o sábio Paulo Freire que “conceitos são palavras grávidas de mundo”~. Lembram? Então que a gestação do referido conceito  nos leve para melhorar e ampliar a comunicação nos museus. Essas casas maravilhosas que mostram muito pouco de seus potenciais culturais, onde muito permanece encoberto, proibido, controlado… ´sendo as exposições objetos de incomunicação pelo excesso ou pela falta de informação sobre o tema que pretendem mostrar…. a exposição precisa ser mediada pelo educador porque os recursos de midia utilizados são insuficientes para completar o processo comunicativo. Muito ficca para ser dito….  a exposição torna-se uma “mostra” de objetos que remetem a determinados elementos culturais, e estes objetos  são mudos…em sua maioria só se  revelam pelas qualidades  estéticas. Pensemos o caso de objetos de determinada cultura indígena do Mato Grosso por exemplo…. o que uma  vitrine mostra daquele povo? que história conta? de quais cotidianos se refere? quem usou, quando e por que? quem os produziu?????   o museu  cumpre seu papel de  guardador de objetos, mas será que é mediador desta cultura?

    #894

    Eu acredito que o que tem que ficar claro para os mediadores é o objetivo do museu com aquela exposição. Um museu de arte é diferente de um museu histórico que é diferente de um museu etnológico que é diferente de um museu de ciências. Ambos querem comunicar coisas diferentes ao público, tem objetivos distintos. Por isso é importante que o programa educativo de um museu seja construido em consonancia, senão junto, com o projeto curatorial . Vai ser a especificidade do patrimonio trabalhado e da visão que se quer passsar sobre esse patrimonio pelo museu que vai indicar o como se dá essa mediação.

    #914

    Olá a todos, fico feliz em poder fazer parte desse momento de criação coletiva, de consenso e dissenso. Este tema é de fato importante. Por uma série de motivos, em especial pelo caráter político implicado no uso desta ou daquela palavra para denominar a atividade em questão. O Jorge Ramos resumiu muito bem estas distinções entre guia monitor e mediador. O que a Daniele colocou também é importante: é preciso que tais modos de educação estejam presentes nas práticas. O termo mediador é um grande passo, poderia-se dizer que este modo de pensar a educação museal guarda afinidades com a educação construtivista e distancia-se da noção de educação bancária implícita nas noções de guia ou monitor. Porém, mesmo o termo mediador guarda alguns problemas se pensado de determinadas óticas. A concepção de mediador no campo judicial, por exemplo, que diz respeito àquele que leva partes discordantes a um consenso, apaziguando a diferença, me parece ser insuficiente, pois penso que é justamente o dissenso, o embate que propicia o movimento do pensamento. Outro problema é a identificação do mediador de museus à uma figura de ponte, caminho retilíneo entre público e objeto exposto. Enfim, penso ser importante atentarmos para estas distinções, mas estas denominações podem coexistir. É  importante não aplainarmos a diferença que atravessa as ações educativas. Eu prefiro trabalhar com o termo educador – mesmo sendo uma denominação muito genérica – pois nesse termo podem estar contidos distintos modos de concepção da educação.

    #924
    Ozias Soares
    Membro

    A questão colocada aqui pelo Rafael Silveira amplia este debate exatamente porque em qualquer termo que usamos encontram-se subjacentes distintas concepções de educação. As palavras, todavia, são armas, são ferramentas, induzem, produzem, reforçam ideologias. Como disse Jocenaide Maria Rosseto, lembrando Paulo Freire, as palavras são “grávidas de mundo” e, como tal, diria, expressam contradições e conflitos. Concordo com o Rafael em que o termo monitor e guia vinculam-se, pelo uso, a uma “concepção bancária” de relação ensino-aprendizagem. Preocupa-me, entretanto, uma apropriação do novo como novo por si só, sem que haja uma reflexão em torno dos termos e conceitos! Estamos fazendo uso de um referencial teórico e conceitual por uma questão de clareza política em nossa prática nos museus ou apenas fazendo coro com modismos nominais? Aliás, se formos ampliar o uso de mediação, talvez concordemos que os objetos por si só são mediações “com” e “no” mundo. Talvez eles não sejam tão “mudos” como pensemos… É bem verdade que muitos objetos ao serem transplantados de suas funções originais carecem de uma mediação especial, de uma boa legenda explicativa, mas eles expressam um acúmulo histórico de conhecimento e cultura. Portanto, como as palavras, parafraseando o Freire, os “objetos museais”, ou “musealizados” também estão “grávidos de mundo”! Mas, que “mundo”? O do curador, o do museólogo, o do artista, o do patrocinador da exposição, o do educador, o do patrono do museu, o do público visitante? Como diz a Thatyanna, estaríamos, como educadores de museus, prontos para este desafio? A mediação daria conta de uma problematização desses “mundos”? Bem, gostaria que vocês me ajudassem neste debate…

     

    #933

    O debate é mais do que necessário, e ação mais ainda, concordo com a colega que diz que nada adianta mudar a nomenclatura senão mudar a atitude. Como vamos nos inserir nesse novo processo, será ele novo mesmo?

    #1104

    Olá amigos.

    Achamos que o termo mediação pode ser usado quando há uma transmissão de informações, ou em alguns casos, de opiniões entre o profissional de Museu e o público. “Visitas guiadas” ou “Monitoradas” detona um caráter mecânico, não havendo um maior envolvimento do monitor com os visitantes.

    Entre os ganhos dessa mudança de termos está uma maior aproximação e interpretação por parte dos visitantes diante das exposições.

     

    Equipe MuRAU – Museu Regional do Alto Uruguai

    Erechim/RS

     

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